EMPREENDER NA ARGENTINA: O QUE O MERCADO LIVRE ENSINA SOBRE CRESCER EM PLENA CRISE

Published on 5 de outubro de 2026

Empreender na Argentina: o que o Mercado Livre ensina sobre crescer em plena crise

Quando o Mercado Livre nasceu, em 1999, em uma garagem de Buenos Aires, tinha cerca de 80 concorrentes com o mesmo modelo. Sobreviveu porque fez o contrário de quase todos: guardou o dinheiro enquanto os outros o queimavam em marketing.

Essa decisão resume o que empreender na Argentina continua exigindo, em um país onde a crise faz parte do plano de negócios. E o Mercado Livre não apenas a aplicou: transmitiu-a a uma geração de founders e investidores que hoje compete fora do país.

Mercado Livre: o caixa como vantagem competitiva

Marcos Galperin fundou a empresa com dois colegas de Stanford, Hernán Kazah e Stelleo Tolda. Enquanto a maioria dos concorrentes gastava para abrir capital o quanto antes, eles guardaram o dinheiro. Quando a bolha das pontocom estourou e a concorrência ficou sem recursos, o Mercado Livre ainda tinha 40 milhões de dólares no banco, segundo contou Galperin em Stanford.

Paradoxalmente, esse caixa quase lhes custou a empresa. "Os acionistas queriam fechar a empresa porque ainda não tínhamos gastado o dinheiro", lembrou Galperin em 2019. Naquela reunião, ele chegou a desabar: "Eu não conseguia convencê-los e comecei a chorar desconsoladamente". No fim, os fundadores ganharam a votação por muito pouco.

A segunda lição veio em 2001 e teve a ver com a expansão internacional. O eBay entrou com 20% do capital sem colocar um dólar: em troca, cedeu sua subsidiária no Brasil e os tornou seu parceiro para toda a América Latina. O Mercado Livre perdeu dinheiro durante sete anos, tornou-se lucrativo em 2006 e abriu capital em 2007.

Mercado Livre, celeiro do ecossistema argentino

Essas duas lições não ficaram dentro da empresa. Em 2011, Kazah deixou o Mercado Livre e fundou o fundo de venture capital Kaszek com Nicolás Szekasy, que havia sido diretor financeiro da companhia.

Hernán Corral seguiu um caminho parecido: passou 12 anos no Mercado Pago, a plataforma de pagamentos do grupo, antes de cofundar a Pomelo, que oferece infraestrutura de pagamentos a fintechs de toda a América Latina.

Galperin, por sua vez, faz parte do conselho da Endeavor Argentina, uma organização que seleciona e apoia empreendedores de alto impacto. A então diretora executiva, María Julia Bearzi, destacava em 2021 o que o ambiente argentino desenvolve em seus founders: "a flexibilidade para se adaptar às mudanças contínuas do ambiente e a capacidade de reação para fazê-lo com rapidez".

A nova geração já compete lá fora com essa mentalidade. No South Summit Madrid 2026, a cordobesa Wise CX venceu a categoria Enterprise Solutions da Startup Competition, e a CryptoMate foi uma das 100 finalistas, escolhidas entre mais de 4.500 startups.

Quais desafios uma startup enfrenta hoje na Argentina?

Essa geração cresce em um ambiente que continua pondo o caixa à prova. O primeiro desafio é a inflação. Ela diminuiu, mas em agosto de 2026 os preços ainda subiam 33,5% em doze meses, segundo o INDEC. Isso obriga a revisar preços, salários e projeções de caixa com muito mais frequência do que na Europa.

O segundo é o acesso a moeda estrangeira. As pessoas físicas já podem comprar dólares sem limite, mas as empresas continuam sujeitas a restrições cambiais, o chamado cepo. Para uma startup, isso dificulta pagar fornecedores no exterior ou planejar o financiamento.

O terceiro é um mercado interno pequeno e instável, que leva muitos founders a vender para fora o quanto antes. Para quem exporta serviços, há um incentivo claro: a Lei de Economia do Conhecimento, aprovada em 2019, os isenta de direitos de exportação.

A lei, que beneficia empresas de software, biotecnologia e serviços profissionais, entre outras, inclui ainda um bônus fiscal equivalente a 70% das contribuições previdenciárias que a empresa paga por seus funcionários e um desconto de até 60% no Impuesto a las Ganancias, o equivalente argentino ao IRPJ.

Inflação, cepo e mercado pequeno levam ao mesmo reflexo que o Mercado Livre teve há 25 anos: proteger o caixa e olhar para fora.

O que uma startup que quer crescer a partir da Argentina pode aprender?

A história do Mercado Livre deixa três perguntas que todo founder argentino deveria saber responder:

●      Caixa: você tem fôlego para aguentar se o financiamento secar de repente, como aconteceu com a concorrência do Mercado Livre?

●      Mercado: seu produto pode ser vendido fora da Argentina desde o primeiro ano?

●      Incentivos: você aproveita a Lei de Economia do Conhecimento, incluindo a isenção para exportar serviços?

Buenos Aires, próxima parada do Scaleup Series do South Summit

Uma dessas histórias subirá ao palco no dia 21 de outubro. O South Summit e a IE University realizam o IE Venture Day Buenos Aires, a etapa argentina do Scaleup Series, na Usina del Arte, a partir das 13h30.

Em "Da Argentina para o mundo", Juan José Güemes, da IE University, conversará com Hernán Corral sobre o que significa construir e fazer crescer uma empresa: os desafios, as decisões difíceis e as convicções que marcaram sua trajetória.

"A vida depois do exit" reunirá Diego Sáez Gil, fundador da Pachama e da Bluesmart, o investidor-anjo Santiago Pinto e Nahuel Celerier, subsecretário de Políticas Produtivas da Cidade de Buenos Aires. Eles vão falar sobre por que muitos fundadores, depois de vender sua empresa, escolhem voltar a empreender, investir e contribuir com o ecossistema. Kazah, ao passar do Mercado Livre para a Kaszek, percorreu um caminho parecido.

A programação se completa com duas sessões sobre a identidade do ecossistema portenho e o capital que impulsiona as startups da região, além de duas rodadas da Startup Competition. Os vencedores serão anunciados às 17h10, antes do coquetel de networking. Garanta sua vaga aqui.